A Inteligência Artificial e seus impactos na sociedade e nos empregos

         


Cezar Taurion

A cada dia ouvimos mais e mais sobre a Inteligência Artifivial (IA) e seus impactos na sociedade, nos empregos e nas funções. Entretanto, até recentemente, a IA era similar à fusão nuclear, uma promessa não cumprida. Muitas expectativas foram frustradas ao longo de décadas de experimentações. Mas, agora, a IA está mostrando um potencial ainda não totalmente conhecido para alcançar capacidades humanas. IA está rapidamente se tornando a tecnologia fundamental em áreas tão diversas como veículos autônomos e negociações financeiras. Algoritmos de aprendizado de máquina já são rotineiramente incorporados em muitos serviços. As implicações são profundas!

Alguns afirmam que a IA não vai afetar significativamente os empregos, enquanto outros afirmam o contrário. Embora não tenhamos ainda provas definitivas, aqui e ali já aparecem estudos e pesquisas que mostram que a IA vai afetar sim, e o que vai variar é o grau deste impacto. Recentemente li um artigo sobre o banco JP Morgan que me chamou atenção. Descreve a iniciativa do banco americano, em um projeto de IA, chamado COIN (Contract Intelligence) que realiza automaticamente análises de acordos de empréstimos que, consome em média, 360 mil horas de trabalho por ano de advogados e agentes de crédito. O software, além de revisar os documentos em segundos, é menos propenso a erros e nunca entra em férias! O impacto da transformação digital e da IA, nos negócios e na sociedade, será a de um devastador tsunami e não deve, sob nenhuma hipótese, ser negligenciado.

Estudos já mostram alguns dados preocupantes. No mercado americano, um robô por mil trabalhadores reduz o índice emprego / população em cerca de 0,18-0,34 pontos percentuais e os salários em 0,25-0,5 por cento. Para cada novo robô adicionado a uma fábrica americana nas últimas décadas, registrou-se uma redução de emprego, em torno da função automatizada, em 6,2 trabalhadores.

Bem, mas o mercado americano não é diferente de países em desenvolvimento, como o Brasil? Certo, mas, infelizmente talvez esta diferença não signifique proteção. Na verdade, estudos e pesquisas demonstram que países em desenvolvimento também correm riscos sérios. E isto já está acontecendo na China, onde as indústrias estão agora se voltando para máquinas inteligentes como substitutos para o trabalho humano. Uma fábrica de eletrônicos em Xangai já substituiu dois terços de sua força de trabalho humana e planeja se tornar 90% automatizada nos próximos anos. A Foxconn que fabrica produtos eletrônicos para empresas como a Apple, recentemente substituiu 60.000 trabalhadores com robôs em uma única fábrica. Esses exemplos estão longe de serem isolados. A China já instala muito mais robôs industriais do que qualquer outro país, e no próximo ano terá superado os dois maiores países industriais, EUA e Alemanha, em número de número de robôs industriais em operação.

Um relatório do Banco Mundial, chamado "Digital Dividends" aponta que dois terços de todos os empregos no mundo em desenvolvimento enfrentam a real possibilidade de serem automatizados, embora a velocidade de substituição seja incerta e "dependa do ritmo da disrupção tecnológica" adotada pelo país. Um artigo publicado no New York Times, por um economista de Harvard, "The Mirage of a Return to Manufacturing Greatness" analisa que a desindustrialização prematura nos países em desenvolvimento, faz com que a renda desses trabalhadores se posicione em um patamar muito mais baixo do que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, antes do início da transição para uma economia de serviços. Em outras palavras, os salários se situam em patamares muito baixos para que os cidadãos dos países em desenvolvimento possam transformá-los na força consumidora necessária para sustentar uma produção automatizada, possibilitada pela quarta revolução industrial. E na economia de serviços o fenômeno da uberização muda significativamente o conceito de empregos, com os pagamentos sendo efetuados apenas pelo tempo que você realmente trabalha, com tendência a baixar renda e deixa em aberto questões como aposentadoria, seguro saúde e assim por diante.

A quarta revolução industrial está apenas em seu início e seus impactos no longo prazo ainda são bastante incertos, simplesmente porque ainda não temos dados disponíveis suficientes para termos uma visão clara de como a IA, a robotização e uberização afetarão o emprego e as funções. A próxima revolução industrial (a chamada quarta revolução industrial) não irá replicar o passado, simplesmente porque a rápida adoção em massa da robótica e da IA ameaça destruir muitas indústrias quase simultaneamente, sem dar tempo de recuperação à economia e a sociedade em geral. Os avanços da robótica podem ser tais que, de repente, a maioria, senão todas, as funções humanas básicas envolvidas no trabalho manual poderão ser realizadas de forma mais eficaz e mais barata por máquinas, com a vantagem destas serem capazes de trabalhar continuamente com um custo marginal mínimo.

A Inteligência Artificial (IA) promoverá uma nova relação entre humanos e máquinas, e transformará a natureza do trabalho como conhecemos hoje. Claro que a quarta revolução industrial também irá criar novos empregos. São necessárias pessoas para construir os sistemas de IA. Uber, por exemplo, contratou centenas de especialistas automotivos, dos quais cerca de 50 são do Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon. Os especialistas em IA são os profissionais mais procurados hoje em Wall Street. Em segundo lugar, os seres humanos podem fornecer o senso comum, habilidades sociais e intuição que as máquinas não têm. Infelizmente, estima-se que estes novos postos de trabalho, de alta qualificação, não serão suficientes para compensar o número de postos de trabalho pouco qualificados perdidos para a automatização. O relatório do Banco Mundial alerta que "os países em desenvolvimento devem abraçar a revolução digital" e "redesenhar os sistemas de educação para criar as habilidades gerenciais e trabalhistas necessárias para operar novas tecnologias".

A quarta revolução industrial não é opção, mas uma necessidade para os países se manterem competitivos. Há uma percepção que a maioria das economias dos países desenvolvidas estão mal preparadas para a quarta revolução industrial. Em economias mais atrasadas como a brasileira, essa percepção é realidade! Isso pode significar o deslocamento de milhões de empregos, a destruição de muitas empresas hoje sólidas e tradicionais que serão lentas em se adaptar e um grande aumento na desigualdade de renda na sociedade. Infelizmente, percebo que, aqui no Brasil as discussões sobre o efeito da IA e seus impactos continuam muito distantes. Nada se ouve sobre o assunto pelos legisladores e gestores públicos, pouco se fala nas empresas, e em grande parcela da academia o assunto está restrito a poucos pesquisadores de ciência da computação. Sim, no Brasil estamos bem atrasados. Mas é um grande equívoco subestimar os riscos decorrentes da disseminação destas novas tecnologias.

Cezar Taurion
Partner & Head de Digital Transformation KIck Ventures
VP Inovação do ISCBA - Instituto Smart City Business America






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