Mesa São Paulo



SÉRGIO PASQUALIN - CENTER NORTE

No setor químico, os mesmos produtos no Brasil e no exterior tem diferença de imposto de 40%. A mídia essa semana "nadou de braçada" em cima da Sony, mas na realidade estamos a mercê de margens fantásticas e o pano de fundo desses setores é que a carga tributária é o grande vilão. É mais uma margem alta provocada por alguém.

A provocação aqui é que todos, sem exceção, estão praticando margens altas. Como reverter essa ciranda de margens fantásticas? São várias montadoras entrando no país, mas nenhuma brigando no preço. O setor financeiro ficando cada vez mais enxuto no número de players, com grandes acordos.

A provocação é essa: nós somos uns bananas. E como sugestão gostaria de ouvir a todos nessa mesa.

ALMIR MOTA - CNPL

Pegando o gancho dito pelo Wanderley sobre os BRICS. Efetivamente, hoje quando se fala de BRICS, lembramos da África do Sul e da Coréia. E o que diferencia esse pessoal todo é um incremento que agrega valor que é o conhecimento. E que espécie de BRIC é o Brasil? Destaca-se como um BRIC tipo latino-americano (e estou falando América do Sul, Central e México). Quando estudamos a evolução dos BRICS, a análise deve ser feita comparando-se Rússia,India,China com seu progresso e conhecimento agregados. No caso do Brasil, não. Somos comparados como se fossemos sul-americanos. O Brasil evoluiu muito com relação a Argentina, ao Peru, ao Chile, mas com relação àqueles, deixa a desejar.

Voltando a questão central, pergunto porque o empresário requer altas margens nesse país? Em finanças, eu aprendi que toda remuneração é inerente ao risco assumido. Quanto mais risco, remunera-se melhor. Mas o que estamos remunerando hoje, o risco ou será que é a propina? Tudo isso morre lá em cima, na questão da justiça. Acho que nossas margens estão afetadas também por isso. O problema não é só o tributário.

MAURÍCIO GHETLER - MG SYSTEMS

Acho que tem alguns pontos que fazem com que essa margem seja extremamente elevada no Brasil. É lógico que tem a questão do risco Brasil. Se pudéssemos considerar já tínhamos tido um reconhecimento mundial de risco a muitos anos atrás e o pouco que tivemos já voltaram atrás.

O segundo ponto é o da produtividade que no Brasil não é alta em muitos segmentos, inclusive no setor bancário e seguros. É uma produtividade que está crescendo continuamente. Os bancos começaram antes a se automatizar e ganhar produtividade. As seguradoras começaram a trabalhar nisso e também estão ganhando em produtividade. Agora não são só esses setores que contribuem para o risco Brasil, existem muitos outros. Existem setores que há 400 anos estão mal e continuam sendo subsidiados (não precisamos nem explicar quais são).

O Brasil, em alguns casos, consegue perder mesmo quando corre sozinho. Como é que conseguimos deixar de ser os maiores produtores de cacau? Quem é que responde a essa pergunta? Perder para Costa do Marfim, francamente... Como perdemos, de vez em quando, para a Índia no açúcar? No café para a Colômbia? Uma vergonha...

Temos o fator propina que é muito caro (não dá para desprezar) e entra na conta de qualquer multinacional que queira se estalebecer no Brasil. E ainda existe a insegurança jurídica que tem um custo. A insegurança de se ver um contrato honrado tem que ser considerada. Na América Latina é muito pior.

E é lógico que existe o mau hábito de se colocar uma margem alta. Está todo mundo fazendo porque não fazermos também? Recentemente estive na Argentina, a negócios, e um colega me deu carona num Corolla novinho e perguntei quanto tinha custado em reais aquele carro. Ele me disse que custou R$ 40 mil. E disse: - É feito aqui na Argentina? E ele respondeu: - Não, é brasileiro! Daí eu expliquei para ele que aqui custava R$ 75 mil, o mesmo modelo e ele não acreditou. É essa a realidade. Lá não se engana o argentino no nível que se engana o brasileiro. Assim mesmo temos que admirar o fato que ele (o argentino) não aceita esse tipo de preço abusivo que o brasileiro sempre aceitou. E já falamos aqui, o que se fará contra o IPTU, que está na nossa cara aqui no estado de SP? Praticamente nada, aliás já ganharam fazendo um acordo. E então, alguém vai pagar em juízo, ou mover uma ação coletiva. O governo também percebeu que pode.

JOSÉ JAIRO MARTINS - MÓBILE

Minha filha trabalha na área de marketing de uma multinacional de consumo e na atuação dela na América Latina estava tentando entender uma pesquisa de consumo de um produto que foi feito ao mesmo tempo no Brasil e na Argentina. O resultado da pesquisa na Argentina foi bem negativo para o produto e aqui no Brasil, otimista. E a avaliação colocada foi que era inviável se fazer pesquisa desse tipo aqui, pois ele por si só tem um povo, uma cultura não crítica. Na Argentina, eles foram críticos na avaliação e também em função do momento político que eles passam, refletiu-se na pesquisa. E aqui no Brasil foi tudo uma maravilha. Ela tinha que fazer um relatório para o diretor tentando explicar porque a mesma pesquisa, aplicada ao mesmo tempo para um mercado alvo no Brasil e na Argentina tiveram resultados tão diferentes.

Voltando a questão das margens, sobrecarga e taxação em serviços aqui no Brasil, na área de telecomunicações as tarifas praticadas (talvez) são as mais caras do mundo. E começamos a entender, analisando essas tarifas. Os estados como Acre e Amapá se tivessem redução de ICMS, que é 50% ou mais dos serviços de Telecom, a receita do Estado cai consideravelmente. Infelizmente aqui não se pode alterar as taxas de ICMS se não houver um consenso no CONFAZ. Fica de um lado São Paulo tentando reduzir impostos e o Acre e o Amapá puxando. E no final quem paga as contas, somos nós.

O governo de forma extremamente "criativa" encontrou uma forma de convencer os empresários a investirem, reduzindo os impostos ou abrindo mão temporariamente dos impostos no caso de IPI (para veículos). No caso das telecomunicações como os investimentos estavam num patamar baixo, em função de algumas das grandes operadoras do país terem origem européia (e houve crise na Europa), o governo lançou o tal do 4G. As quatro grandes levaram o edital, ganharam a concessão, e como "prêmio", seis meses depois, o governo resolveu implementar uma portaria que estabelece desoneração de IPI/PIS/COFINS para quem implantar redes de telecomunicação no Brasil. E o grande objetivo, segundo eles, é incentivar um investimento maior no Brasil. Percebe-se que não há nenhuma ação mais estratégica, nem um planejamento de longo prazo para dizer que o país precisa chegar em 2020 ou 2022 para aumentar a penetração de banda larga, diminuir sensivelmente as tarifas. Estamos numa situação difícil porque não vemos através desse governo uma ação estruturada de longo prazo. A penetração do 3G e do 4G no Brasil hoje é muito importante devido aos grandes eventos que ocorreram por aqui. É muito importante que possamos ofertar o roaming internacional aos turistas que vierem ao Brasil. É preocupante o cenário dos próximos anos na nossa área de telecomunicações e tecnologia como um todo.

PASQUALIN - CENTER NORTE

O aumento da produção compensaria esses investimentos que são pontuais. Será que o Brasil estaria preparado para ir para a frente, deslanchar? Ele está preparado a muitos anos é que sempre se coloca um novo pano de fundo. Para se chegar no futuro é preciso vencer o presente.

Algo que infelizmente não estamos fazendo bem - uma boa entrega. Precisamos de uns "umbigos novos", com perfil meio anarquista, para provocar porque a nossa entrega não está boa.

MAURÍCIO GHETLER - MG SYSTEMS

Eu discordo, eu acho sim que a nossa entrega está boa e estamos fazendo a nossa parte (empresários/executivos), só que somos muito poucos. O pouco que geramos de riqueza é demagogicamente distribuído para o Brasil, então chega o momento que haja energia para ficar só nós levando o "saco nas costas". Recentemente ouvi uma piadinha sobre telecomunicações, era um banco falando de outro. E dizia o seguinte: o banco do vizinho tinha trocado toda a telecomunicação para a TIM porque era a mais econômica. Econômica por que não funciona, não se gasta nada. A que ponto chegamos de não podermos usar uma operadora para nada, nenhum serviço, nenhuma ligação, nenhum SMS? E as tarifas são as mais altas do mundo, você se sente roubado.

Recentemente tive que fazer muitas demonstrações de softwares e acessar a internet e tenho um 3G da TIM. E o que aconteceu? Não funcionou num cliente. Eu disse, não tem problema vou comprar um wi-fi da CLARO, não funcionou também. Fui prejudicado no meu negócio por conta disso e comprei um da VIVO. Um amigo me disse: não faça essa bobagem de comprar os que ligam em USB. Compra logo aquele antena grande, que tem o 4G ou o 3G da VIVO (Vivo Box). É mais peso que carrego, mas funciona. Agora porque que uma pessoa precisa perder todo esse tempo, a produtividade, para poder usar o mínimo de mobilidade?

ROBERTO VOI - EMC

Recentemente uma equipe da EMC foi participar de uma reunião sobre um projeto de TI na Bombril e chegando na recepção tinha uma foto da TIM com um Bombril (porque ela não pega). Imagina uma imagem numa empresa dentro de um grupo econômico forte como a Bombril e se deparar com uma situação como essa. A Bombril no papel cliente se sentindo totalmente mau atendida tomar a atitude de colocar uma foto da logo da TIM e um bombril junto para ver se melhora a recepção.

MAURÍCIO GHETLER – MG SYSTEMS

Nós somos criativos. O brasileiro se adapta facilmente as situações, sejam elas boas ou más. A começar pelo celular onde optamos por 2, 3, 4 chips de operadoras diferentes para poder adaptar a tarifa e fazer mais uma série de coisas. Nós criamos um problema cultural inverso. A população de classe baixa do país se adaptou a situação da falha da tecnologia e utilizou esses artifícios. Por outro lado, vemos uma população mais esclarecida que enfrenta o problema e tenta buscar um contorno por outras alternativas.

Existe uma formação acadêmica muito séria, as empresas recebem pessoas que ingressam já na geração Y, teoricamente. Com um conhecimento de uso de tecnologia com capacidade para utilizar os meios e se frustam dentro das empresas porque elas ainda são retrógradas. Elas não conseguem aplicar tecnologia de maneira correta, não tem um plano adequado de mobilidade corporativa, ainda não estão devidamente integradas. E quando olhamos para a máquina empresarial remetemos a máquina de governo, que é uma empresa piorada, uma terceirização mal feita. É todo um problema cultural que precisamos ver por trás.

Eu tenho uma esperança muito grande que as próximas gerações levem uso e costume de forma diferenciada tanto para a máquina de governo quanto para as empresas. Devemos caminhar para isso, com certeza.

ROBERTO VOI - EMC

Juntando todas as partes que já discutimos, seja pelo custo país ou pelas margens que a gente pratica, e isso está totalmente atrelado. Seja por que se tem um custo jurídico elevado e se não tomarmos esse cuidado não se consegue operar bem com a sua empresa. Se por outro lado não se prever alguns custos adicionais que teremos... Se formos atuar num mercado público, que modelo de negócio podemos atuar através de seus parceiros? Tem que se prever certas contingências e tudo isso vai sendo imposto das margens altas.

Outro ponto importante que citamos foi, porque que na Argentina se tem esse tipo de postura mais crítica e o Brasil é diferente? Já discutimos em outros almoços sobre isso, e a educação é o pilar de tudo, a cultura. Vemos a geração Y, Z tendo um preparo muito melhor para chegar ao mercado de trabalho, mais se decepcionando ao chegar na empresa e não ver o mesmo mundo. Recaímos então na mobilidade, que para mim é um caminho sem volta tanto para eles quanto para a gente, pois nós nos adptamos ao que eles trazem. Para eles essa questão do touch ou em qualquer lugar eu faço o que eu preciso é muito natural porque nasceram digitais. Acho que o caminho é sem volta por conta das aplicações. É um problema de TI, de revisão de processos. Se não tivermos toda essa leitura e trabalho acho que vamos aumentar (apesar de não termos mais esse problema de desemprego). Qual é a motivação que precisamos ter para capturar esses profissionais? As empresas precisam se transformar, eles estão trazendo os próprios dispositivos para dentro da empresa, eles querem ter a agilidade das aplicações. Rapidamente ele baixa uma aplicação e na cabeça dele vai chegar na empresa e acha que vai ter um portal para baixar e melhorar a produtividade dele.

Vejo hoje o mercado pegando o gancho de software e acho que vivemos a época do centralizado, chegamos ao Java e não sabíamos direito como ganhar dinheiro com aquilo. Tem uma correlação com a própria Internet.

Tive o prazer de ter uma experiência na IBM e ela foi uma das empresas que foi muito hábil em usar essa tecnologia do Java e fazer uma forma de que dentro da parte do software, gerasse mais valor para o negócio. Ela alavancou muito isso no final dos anos 90.

Vejo que hoje muitas outras novas tecnologias já são realidade, são maduras, competentes, desenvolvendo capacidade e agilidade nessas novas aplicações. Velocidade no desenvolvimento, a forma de interatividade com o usuário ser cada vez mais simples. Na nossa visão, seja banco ou seja a empresa que for, se as áreas de TI não estiverem analisando essas áreas de ruptura que falamos aqui, em nuvens, querendo usar mais os recursos, não tendo recursos sobrando, teremos um tempo ruim nos próximos anos. Perderemos mercado não só no sentido de vendas, mas a própria empresa não terá apelo para capturar a mão de obra.

Sem dúvida, o Brasil tem uma característica fantástica da adaptação e da inovação. O brasileiro tem um jogo de cintura diferente, o que está faltando é melhorar um pouco mais o nosso delivery, ser um pouco mais adequado. As campanhas mais fortes devem intensificar a educação, se não mudarmos os jovens não vai adiantar trabalharmos a classe média. A troco do quê, o que queremos de retorno? Não sou contra projeto social, só acho que ele tem que ter um objetivo maior do que acabar com a pobreza. Acabar com a pobreza para mim tem a ver com a produção e não só com a recepção do dinheiro. Como esse dinheiro gera condição para que essa classe realmente se estruture melhor e nos ajude nessa empreitada de mudar o Brasil.

Vejo o nosso governo atuando por espasmos. Não há um plano. Só vejo um plano de poder muito claro. Se pegarmos o último relatório do FMI e vermos tudo o que ele coloca do país está muito claro (se soubermos ler e entender), tem um desafio grande. O Brasil é um país latino-americano como colocaram aqui. Será que a gente foi capa da The Economist porque o resto do mundo estava com problema e agora que o resto do mundo está voltando à normalidade aos poucos, estamos voltando ao nosso lugar. Sem dúvida, hoje, o governo é o maior gerador de impacto para o que quisermos fazer por que é muito caro arrastar esses caras. É caro não só na parte de finanças como na energia que temos que despender para fazer alguma coisa. Empreendedor no país é herói e concordo com o Pasqualin quando ele fala que a entrega não está boa. Pecamos no delivery sim, mas não podemos descartar que fazemos muita coisa porque se não nos reinventarmos e no dia seguinte não levantarmos com mais energia que o dia anterior, fica difícil se manter no país e acreditar que o futuro do seu filho será melhor.

CARLOS A. SACCO - ABES

Quero falar sobre a mobilidade da geração Y. Concordo que essa geração Y está digital, só não sei se já perceberam o que passa pela cabeça deles. Se alguém pensa que o pessoal é anarquista, eles não são não. Eles não tem uma consciência de deveres, é um problema muito sério. Se pesquisarmos no Google as palavras dever, obrigação, responsabilidade, desafio vocês. E depois a soma das ocorrências disso comparem com a palavra direitos. Vocês verão que direitos são pelo menos 3 vezes a soma das outras três palavras. Ou seja, a nossa geração acha que primeiro ela vai usufruir e depois ela tem direito a tudo e depois ela deve alguma coisa. Só que o povo sempre foi meio assim mesmo, não é só a geração Y. Uma das saídas do Brasil seria tirar essa ideia que as pessoas tem tantos direitos e nenhuma obrigação. É uma vergonha hoje falar para alguém que ela deve algo, não se cogita isso dentro de uma empresa, de casa, ou na Internet.

O brasileiro precisa equilibrar essa balança e começar a entender que ele tem mais o que fazer do que ficar só clamando por vantagens, direitos, subsídios, por uma tarifa menor de ônibus, por aquela bolsa. Não há mais de onde tirar, a muito tempo.

ROBERTO VOI - EMC

E pegando esse ponto, ficou claro nesses movimentos das ruas (não sei se vocês tiveram a mesma interpretação que eu). Eu pensei: será que o pessoal acordou? Eu comecei vendo os cartazes dos R$ 0,20 e só foi conseguir essa vitória que eu via a coisa se perdendo de uma tal forma, que rapidamente perdeu o sentido. Eu já fui numa dessas caminhadas já que sai do trabalho, de carro e não tinha como andar, fui "engolido". Eu percebi que estava tudo correndo na maior paz que eu saí do carro, o tranquei e sai andando também. É impressionante como tudo se apaga muito rápido.

CARLOS A. SACCO - ABES

Pegando um gancho nessa questão de desenvolvimento de softwares. A produção deles não é feita por máquinas e sim por pessoas. Essas pessoas tem que ter algum tipo de relação com as empresas. A nossa carta magna da regulação do trabalho remonta há mais de 80 anos. Fazendo um paralelo, há 80 anos atrás se levava 12 horas para fazer um Ford T. Hoje, a indústria automobilística em 1 minuto produz 16 carros. Então nós fomos de um extremo a outro. E a nossa legislação trabalhista permanece igual. Se voltarmos a 80 anos atrás, até para uma iniciativa do governo de proteger os trabalhadores e dos empresários da época se aproveitarem da ignorância do povo.

Hoje em dia, no nosso setor específico de software, não podemos pegar um programador que as vezes tem uma inteligência as 3:30 h/manhã. Eles trocam o dia pela noite. Como exigir que o cara bata cartão de ponto se com a tecnologia de hoje pode-se fazer tudo remotamente. Você cercear as empresas a se vestirem com roupas de 80 anos atrás é extremamente ridículo e acaba onerando.

Nós da ABES, tivemos no ano passado no TST e propusemos (sem inventar) que se um representante comercial tem o direito de não ter vínculo com nenhuma das empresas que representa porque eu não posso pegar um programador, um projetista que pode fazer trabalhos para n empresas sem vínculo também. Como já foi falado aqui, hoje o conhecimento é o ativo mais importante. Já foi terra, já foi indústria e hoje é o conhecimento.

A carga tributária da folha de pagamento, que teoricamente o governo se lançou como grande incentivador para baixar, na verdade tirou de uns e passou para outros. Quando pesquisamos o empresariado, 2/3 se deram muito bem e 1/3 se deu muito mal. O governo fez foi um belo marketing. O bolsa-família é o melhor plano de marketing do mundo por que com 1,2% do PIB brasileiro consegue manipular a massa pra se perpetuar no poder. Qual empresa que investe 1,2% e tem liderança perpétua no mercado? É importante termos essas noções que temos de melhorar. O governo precisa investir na formação de bases, ele não pode só investir nas universidades.

Recentemente uns amigos voltaram da Colombia e me disseram que a 20 anos atrás estava acabada. Estado de sítio, blecaute, racionamento. Hoje, educação. Quem fez o plano urbanístico de Bogotá foi Jaime Lerner, nós brasileiros, exportamos conhecimento. Ozires Silva há 22 anos atrás, junto com Porter, foram dar consultoria para a China. Eu perguntei ao Ozires: quantas vezes ele falou com Lula, ao pé do ouvido, dando uns conselhos. Ele me disse que falou, mas que preferia não me dizer qual foi a resposta do Presidente. Quando temos brasileiros iluminados como Jaime, Ozires e outros, nós não conseguimos nos mobilizar. O empresariado perde 80% do tempo sabendo como driblar a lei, pegando uma fiscalização que interpreta uma instrução normativa do jeito que lhe interessa e você tem que pagar. Todos nós somos parte desse embrólio todo.

Tive na FIESP junto com a cidade de SP onde o Silvio Kalil, presidente do Instituto Butantã, disse que tem 6 alunos brilhantes em Boston e não voltam mais para o Brasil. Estamos perdendo os nossos cérebros para fora. E se eu quero contratar tenho que fazer concurso público. Na média das idades, mais de 60% dos trabalhadores estão às vésperas da aposentadoria, estamos perdendo conhecimento da pesquisa, não posso contratar. Na ANVISA, das 4 diretorias, 2 são advogados e nenhum médico. Na brincadeira, ele disse que se quisermos que um projeto não vá pra frente, dê na mão de um advogado. A burocracia mata.

JOÃO NEVES - PERCEPTION

Tudo isso que ouvi até agora me trouxe uma dicotomia na cabeça. Se tem um lado muito ruim de dia a dia, em que apanhamos dele o tempo todo e que talvez exija uma posição de entrega de resultados. Eu tive vontade de ir para a passeata me arrependi e não fui. Quando começou eu pensei: quem está por trás disso, qual o objetivo disso tudo? Hoje acho que esses "black blocs" da vida são pagos para destruir tudo e fazer com que agora eu tenha medo de ir.

Falamos dos jovens irem para as empresas e transformá-las só que estamos falando somente de alguns jovens, porque não é toda escola que o está formando para isso. É um problema muito mais sério. É a escola que não forma direito, o aluno não passa numa avaliação da OAB e o cara fica frustrado pelo resto da vida e desiste de estudar. Nós não temos essa solução do lado da educação, um cara ali para tomar a frente.

Do outro lado temos que fazer o nosso papel de acordar cedo, pagar as contas pelo outro, trabalhar mais que o outro, começar cedo e acabar tarde. É uma crendice achar que essa tecnologia da Internet das Coisas pode ser uma forma de nos atualizar, de estarmos em fase com o mundo lá fora.

Temos que fazer os dois lados: brigar pela melhora na educação, até porque há uma briga em formar bons profissionais. Tem-se o problema da qualidade da mão de obra. E por outro lado temos que fazer o que fazemos no fórum de IOT ou na ABES, de tentar difundir essa tecnologia, de fazer diferença em algumas coisas dentro da empresa. Estamos com 560 membros. O discurso feito lá está agregando empresários, pessoal da academia, do governo. E o que se está tentando fazer lá, é o que já está sendo feito no Japão, na Coréia e na China, de fazer um plano que independa do PT, PSDB que daqui a 4 anos acaba e joga tudo fora. No Japão existem associações que definem os planos estratégicos, não é o governo. O governo só segue o que eles falam e não o que o governo quer.

Não podemos cruzar os braços e ir dormir ou ir para fora do país, minha filha se casou na Itália e eu e minha esposa não queríamos que ela voltasse. Você acaba achando isso ótimo. O correto é brigarmos para ele ter um lugar aqui.

FÁBIO NUNES - NAVITA

Sou um pequeno empresário no Brasil da área de Telecom, minha empresa tem 150 funcionários, com 90% de geração Y, com média de idade de 25 anos e acho que minha empresa é o maior exemplo do porque o custo Brasil é tão alto. O que a gente vende é algo que não deveria existir, a empresa não deveria existir no mercado. O que fazemos é achar erros de cobrança nas faturas das operadoras. E o que elas erram são de 10 a 14% todo mês. Ou seja, já paga uma fortuna para a operadora para ela te cobrar, mais cobra 10% errado disso. Isso tudo gera uma bola de neve. A empresa paga uma operadora, o custo dessa operadora ela repassa no produto dela, além do custo da operadora tem que se colocar o meu custo para auditar a operadora e pagamos tudo vezes 2. Você paga a saúde mais tem que pagar a saúde privada, paga a segurança mais tem que pagar a segurança privada, paga o transporte mais tem que ter carro, paga pedágio.

E tem o ponto das leis trabalhistas (sou extremamente frustrado com isso), o SINDIPV parece o sindicato dos agricultores da cana de açúcar ou pior, tem cada questão que a gente não acredita. O pessoal que trabalha com a gente é jovem, ganha bem. Tem jovem de 22 anos que ganha R$ 10.000 /mês CLT e quando sai da empresa, bota na justiça porque estava trabalhando no smartphone dele e tem a causa ganha. E isso tudo entra no meu componente de custo. Tem o custo do salário, do overhead, do advogado, da provisão de causas trabalhistas e isso tudo vai virando uma bola de neve que impacta diretamente em quem vai comprar o produto, o meu cliente. Nem sempre é a margem mais o custo de operar aqui.

Certa ocasião precisávamos abrir uma filial no RJ rápido.Depois de todo o processo, o prazo para abrir era de 90 dias. Mais se antecipássemos um "dinheirinho" poderia haver antecipação disso. Isso não é fora da lei? Pagar uma taxa de aceleração?.

FERNANDA F. BERNASCONI - IBM

Do meu lado o que procuro ver é a forma como encaramos essa realidade absurda e os produtos que trabalho na IBM, que são de mobilidade de software, é tentar minimizar esse sofrimento todo e usar todas as vantagens como redes sociais, mobilidade para trazer a informação à tona. Por exemplo, a IBM lançou essa semana um aplicativo que se chama "xxxxxxx". Se tiver um smartphone que tire foto, você baixa um aplicativo gratuito e ele te permite registrar as calçadas que estão ruins. Você tira a foto da calçada, com o geo localizador você marca onde está, o aplicativo já sabe qual é o problema se for um buraco e isso é disponibilizado num mapa de todos os problemas de calçada que aquela cidade tem.

O que queremos estimular (e levando para o lado da discussão) é que esse tipo de produto ou iniciativa traz a mobilidade a favor do cidadão para combater esse tipo de problema. Fizemos esse tipo de trabalho com a AACD, onde saímos com eles nas ruas, na região, para marcar os problemas. Fico imaginando que se cada um fizesse o seu seria uma forma de manifestação e usaríamos a mobilidade ao nosso favor.

Trazendo para os problemas de custo do país, a mobilidade vem e ajuda a reduzir esse tipo de custo. Os produtos inovadores que podem ser trazidos para os nossos clientes, por meio de mobilidade são tão fortes que possibilitam, por exemplo, que não precisemos ligar para um call center. Se tivermos um bom produto, um aplicativo ou uma boa página web de fácil navegação, inteligente, que te possibilite trabalhar corretamente a interação com a empresa, não precisamos falar com um atendente que tem 40% de chance de não dar a informação precisa, não está preparado para tratar com aquele cliente. Muitas vezes é mal educado e desliga o telefone na sua cara.

Nesse contexto temos construído soluções que integram big data, Internet das Coisas. Criamos um protocolo de comunicação que serve para mexer em funções do seu carro, por exemplo, pela Internet. Ligar/desligar ar condicionado, abrir uma porta para alguém, verificar se um funcionário chegou ou não.

Vejo a mobilidade como um caminho muito positivo para começar a botar para fora esse tipo de dificuldade que vivenciamos. A IBM usou, na Copa das Confederações, o big data para se captar tudo o que estava sendo falado nas redes sociais e transformar em dados analíticos para o Felipão sobre o que a população estava falando durante os jogos, por twiter e por redes sociais. Víamos quem falou bem de quem quando havia um gol, identificamos o uso de termos sarcásticos no contexto e etc. Conseguimos então usar esse tipo de inteligência para interagir melhor com o governo, o cliente com a empresa.

Eu tive um caso pessoal. Estava com uma TV que precisava conectar a Internet e não conectava de jeito nenhum. Liguei para a LG e me deram várias opções para tentar a conexão. Minha irmã, que é mais nova, pegou o IPAD e me disse que num fórum da Internet, mais de 70 pessoas estavam com o mesmo problema nessa TV. São formas diferentes de trabalhar e se trabalharmos para fazer a informação subir, terá uma hora que chegará a nossa manifestação, sem precisar passar por "black blocs" na rua.

A inclusão digital está sendo feita (meio despercebida) pelo celular. Hoje nós já vendemos mais smartphones do que telefones sem dados.

FÁBIO NUNES - NAVITA

Sobre a questão da geração Y ser crítica ou não, ando bem desanimado. De um lado as perspectivas econômicas e políticas são um desastre total, quem está começando que deveria ter vontade de trabalhar e fazer diferente, nada. De 150 funcionários, tiro 10% para dizer que são bons, tem vontade, garra, potencial de liderar e ser diretores. Esses dias eu fui questionar algo com a recepcionista e ela me disse que não sabia pois só trabalhava ali. É claro que temos os gênios mais eles querem ir para os EUA, querem trabalhar no Facebook, no Google, a maioria não tem nenhum vínculo, quando quer ir embora vai.

ALMIR MOTA - CNPL

A Fernanda mostrou aqui um caminho para todos nós. Esse programa criado pela IBM nos dá a ideia de que a empresa se preocupou com o social se unindo a AACD. Qual é o maior problema da AACD? A mobilidade dos deficientes pela cidade, com ruas e calçadas horríveis. A IBM sensibilizou-se e desenvolveu isso.. Se outros que desenvolvem softwares pensarem numa solução do tipo da IBM, poderíamos ter uma melhor integração empresa x sociedade. A partir daí, criando-se viabilidades, acha-se um caminho. Os nerds gostam de ser úteis, de participar, por estarem preocupados com um mundo melhor porque nós fomos incompetentes, não estamos deixando nada de bom para eles.É o que penso. Temos parte de culpa neste processo.






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